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  • tatianamatsumoto

Oceano Azul



Quando você entra no Instagram e procura a hashtag “lettering”, vão aparecer milhões de resultados. Logo imaginamos que nesse mercado saturado não há espaço para outros entrarem e que quem está dentro, briga ferozmente com a concorrência. Pode até ser para quem pensa pequeno. Eu sempre defendo a ideia de que no mundo há espaço para todos e vou te explicar como isso acontece (e como ninguém precisa se matar ou matar o amiguinho).

Antes de mostrar o mundo real e o ideal, preciso esclarecer a diferença entre “custo”, “preço” e “valor”. Custo é gasto. Preço é a quantia que se paga por um produto ou serviço. Valor é a percepção do benefício e importância que o consumidor atribui. Em outras palavras, um produto pode ser caro e sem valor se o preço de comercialização for alto e ele não tiver uma importância. Ou pode ter um grande valor e mesmo assim mas ser barato. Agora pare um pouco e pense: o que é mais importante para o cliente? Temos o impulso de achar que o preço é o fator determinante na escolha, mas ninguém compra nada, por mais barato que seja, se aquilo não tiver um valor.

Dito isso, vamos falar sobre dois mundos possíveis.

Na perspectiva do lettering, quando temos um cenário em que os artistas criam o mesmo conteúdo, brigam pelo mesmo espaço e oportunidades usando principalmente a estratégia do menor preço para comercializar seus produtos e serviços, estamos falando de um ambiente extremamente competitivo e “sangrento”, também conhecido como Oceano Vermelho. Nessa situação, a oferta costuma superar a demanda e para ganhar o cliente, os artistas vendem seus trabalhos por um preço menor (ou às vezes nem cobram), ficando à frente dos concorrentes.

Em outro cenário, temos o Oceano Azul, que é um ambiente pacífico onde a competição é irrelevante porque os produtos e serviços comercializados possuem valores distintos. Aquela história de comparar bananas e maças. Nesta situação, a inovação do valor é um dos principais fatores de sucesso para criar o próprio mercado. Ou seja, além de existir uma percepção de benefício, ele é diferente dos que já foram estabelecidas por outros.

Os oceanos são espaços metafóricos que nós criamos e ocupamos. Não há um limite para a existência de oceanos azuis ou vermelhos. Então no mundo há espaço para todos sem conflito, desde que cada um trabalhe na criação do seu oceano azul.

Lembra quando eu falei sobre as 7 coisas mais importantes que aprendi? A primeira era o autoconhecimento e identidade. Quando um artista produz trabalhos ímpares e com identidade, ele automaticamente está criando um valor diferenciado para a sua arte (olha como as coisas fazem sentido).

“Então quer dizer que o artista que cria um trabalho com identidade tem seu próprio oceano azul?” Muitas vezes sim, porque embora ele pertença a um nicho (do lettering, ilustração, pintura etc) ninguém faz exatamente o que ele. Além disso, o fato de ele produzir algo tão exclusivo (e com qualidade), justificaria um alto preço para a venda de seus produtos e serviços.

Quando eu comecei a divulgar os meus letterings pelo Instagram, percebi que não haviam artistas que ilustrassem frases autorais. Quem fazia lettering, usava frases de outras pessoas e quem criava as frases, divulgavam-nas de maneira muito digital e pouco orgânica. Vi que nessa intersecção havia uma oportunidade de criar meu oceano azul.

Além disso, o Instagram é uma rede social de imagens. Não faz sentido passar horas criando uma arte e não tomar cuidado na hora de fotografar e divulga-la. É como ter um restaurante com uma comida maravilhosa, mas servir de maneira sem graça: continua sendo uma boa comida mas só apreciamos quando colocamos na boca, quando poderíamos aproveitar bem antes comendo com os olhos. Por esse motivo, invisto boa parte do meu tempo planejando a fotografia e divulgação da arte.

"Ah! Então criar as próprias frases, representa-las por lettering ou ilustração e fotografar com qualidade me coloca no oceano azul?" Ainda não. Como eu falei, o oceano azul é uma estratégia baseada na inovação de valor. Mostrar que um produto ou serviço tem qualidade e um certo diferencial é imprescindível, mas para tornar a competição irrelevante temos que inovar dentro deste valor. Por isso eu decidi inovar na comunicação da minha arte. Ao invés de simplesmente desenhar o lettering no papel e fotografá-lo, eu o faço em outras superfícies (paredes, chão, vidro, qualquer coisa), procuro contar uma história dentro das fotos e às vezes gravo o making of de maneira incomum, sempre de modo diferente e melhorando em relação ao que fiz anteriormente. O segredo do sucesso não é a repetição do que deu certo, é a evolução disso.

Na teoria, parece ser algo muito revolucionário e que exige uma habilidade sobre-humana, mas o pulo do gato está nos detalhes. A inovação começa quando você decide fazer algo diferente do que já existe e antes que qualquer um faça (pelo menos naquele contexto). Muitos acham que quem inova está um passo a frente dos concorrentes, mas eu acredito que a inovação é um caminho diferente, iluminado e que só pode ser seguido por pessoas dessa mesma ideologia. Quem espera a inovação acontecer para então copiar, segue pelo caminho das sombras (literalmente).

Eu tenho algumas ideias que acho geniais e ainda não as tirei do papel. Não tenho pressa porque se a ideia for tão inovadora e criativa como imagino, dificilmente alguém a roubará de mim. Se fizerem antes de mim, então não era tão inovadora assim.

E enfim, o segundo passo para criar o seu Oceano Azul é a comunicação eficiente desse valor criado. De fato, existem muitas pessoas que produzem trabalhos incríveis, inovadores, com identidade e mesmo assim não conseguem transmitir o valor do seu serviço. Manja aqueles artistas que divulgam trabalhos no Instagram e não tem nem 10 mil seguidores, mas eles são infinitamente melhores que os colegas? Tudo bem que número de seguidores e curtidas não definem qualidade, só popularidade, mas dá uma dó em saber que poucas pessoas estão tendo o prazer de admirar trabalhos tão bons e que alguns clientes não enxergam valor por falta de números no Instagram. O que falta nesse caso é a comunicação sólida com os consumidores e potenciais clientes, que pode ser feita pela proposição de valor. Mas deixo esse assunto para outro post porque esse já ficou bem longo.

Leitura recomendada: Oceano Azul (Renée Mauborgne e W. Chan Kim)


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