Quanto cobrar?



Talvez a maior dúvida de quem está começando a trabalhar com lettering ou outras artes é quanto cobrar pelo serviço. Já aviso que não vou falar o preço que eu pratico porque não é essa a referência que vocês devem ter e que o mais importante é entenderem o porquê do preço que vão cobrar.

Se vocês procurarem vídeos e outros posts de artistas por ai, também não vão encontrar o preço que eles praticam, novamente não por egoísmo, mas porque cada artista tem uma bagagem diferente e que justifica o preço final da sua arte. Não vou replicar conteúdo de outros artistas, então como lição de casa, vão atrás desses vídeos e posts para complementar o assunto, beleza?

Aqui eu vou focar na precificação de artes feitas em parede e são basicamente 6 fatores que eu levo em consideração, mas que sozinhos não podem ser usados para dar o preço ao cliente.

1. Área – o famoso metro quadrado.

Quando viramos "artistas de parede", além da carteira, chaves e celular, também andamos com uma trena na bolsa. Saber a área que vamos trabalhar é essencial para calcular a quantidade de material e tempo para a pintura.

Logo que comecei a trabalhar com isso, passava os orçamentos aos clientes com o preço do metro quadrado. Não demorou muito para aparecer um “espertinho” e mentir o tamanho da parede. Uns meses antes da pintura, o cliente me contatou solicitando um orçamento. Como procedimento, mandei uma proposta com validade de 30 dias informando tudo o que seria feito e o valor final baseado no metro quadrado. Por algumas semanas fiquei sem resposta e depois de um bom tempo a equipe me mandou outro e-mail pedindo um novo orçamento, mas dessa vez com urgência, porque a pessoa que eles tinham contratado cancelou a pintura alguns dias antes da inauguração do estabelecimento.

Eu já tinha todo o histórico salvo nos e-mails (por isso que eu só mando orçamento por lá), então atualizei a data e inclui um valor extra pela urgência do projeto.

A pessoa que eu estava em contato respondeu que a parede havia diminuído e perguntou se eu não poderia reduzir o preço por causa disso. Como eu tinha mandado o orçamento baseado na área total, fazia sentido diminuir, então o fiz.

Quando chego ao local, a primeira coisa que eu sempre faço é dividir a parede em quadrantes para passar o rascunho na proporção exata. E para minha surpresa, aquela parede não tinha diminuído coisa nenhuma. Como não sou de criar conflito, terminei o serviço profissionalmente e usei a situação como aprendizado.

2. Tempo – porque é dinheiro

Todos falam para estabelecer quanto você quer ganhar por hora, calcular o tempo que você gasta para criar a arte e baseado nisso, montar um orçamento para o projeto.

O problema (não tão problema assim) é que quando você tem um portfolio robusto e o cliente pede algo parecido com o que você já fez, é fácil adaptar o conteúdo para a arte e o tempo de criação é menor. Mas às vezes o cliente pede um conteúdo simples e manda uma referência de outro artista. Aí o cérebro se contorce para entregar algo autêntico, autoral, do gosto do cliente e daí temos certeza que isso vai demorar mais do que o de costume. Vale lembrar que o plágio nunca é uma alternativa. Se o cliente pediu explicitamente um trabalho idêntico ao de outro artista, seja ético em recusar e encaminhá-lo ao artista correto. Pode acreditar que a indicação não vai te prejudicar financeiramente, porque esse universo é grande, justo e com certeza vai retribuir esse ato de honestidade.

Outra coisa é que quanto mais prática e experiência temos, mais rápida é a criação e pintura e nem por isso devemos cobrar mais barato, certo? E inversamente, se demorarmos por causa da nossa dificuldade, não seria justo compensar isso no cliente.

Imaginem mandar um orçamento calculado com base na quantidade de horas que serão necessárias. Chegando no local, a pintura demora 2 horas a menos do previsto. Isso significa que o cliente deveria pagar menos que o combinado inicialmente? Claro que não.

Então como usar o tempo ao nosso favor? (péssimo trocadilho, eu sei). A quantidade de horas, dias ou até meses dispendidos vão ajudar a definir a complexidade do projeto, porque quanto mais tempo necessário, mais complexo ele é.

3. Material

Hoje eu trabalho com giz, marcadoras a base d’àgua, óleo e tinta acrílica. Uma caixa de giz custa em média R$ 3,50 e rende várias paredes. Os marcadores podem custar de R$ 15 a R$ 50 cada um, costumam desgastar com facilidade em superfícies mais ásperas e por isso duram uma parede só. A tinta acrílica é uma opção relativamente barata, mas exige muita destreza na pintura. Quem não tem prática, pode levar o dobro do tempo para terminar o serviço.

Fora o material da pintura, não devemos esquecer que algumas paredes são muito altas e precisam de andaimes. Esse custo também deve ser pesquisado com antecedência e contemplado no projeto.

4. Complexidade

Falei da área, tempo e materiais. Juntem tudo e vocês terão a noção da complexidade. Por isso é importante estabelecer uma faixa de preços para trabalhar, ponderando cada aspecto mencionado acima, ao invés de trabalhar com um único preço.

Uma arte feita a 4 metros do chão é mais complexa do que uma feita na altura dos olhos e vocês só saberão o quão difícil é quando passarem pela experiência.

Uma arte composta de mil palavras em uma parede de 1 m2 pode ser mais complexa do que uma única frase nessa mesma área,

Por isso, quando um cliente solicita um orçamento, precisamos saber a área, conteúdo, ter noção de como é a parede (dificuldade de acesso para pintar) e tipo de acabamento para determinar qual material será necessário.

Em geral eu estabeleço um preço teto para cada tipo de material, que eu defini como custo fixo, e nele eu aplico o fator da complexidade (em porcentagem). Então projetos mais simples, podem ter um preço final de 30% do teto, enquanto os mais complexos justificam a cobrança do preço cheio.

5. Finalidade

Recentemente, criei uma nova tabela com preços diferenciados para os clientes (sinto uma chuva de críticas vindo por aí, mas tudo bem porque me considero justa). Para estabelecimentos comerciais e empresas, a faixa de preços que eu trabalho é maior do que para pessoas físicas (gente como a gente que sonha em ter uma casa com a nossa cara). Não é questão de aumentar ou diminuir o valor da minha arte, mas de possibilitar um maior acesso às pessoas que não procuram uma finalidade comercial nisso.

Para restaurantes, empresas e outros lugares não residenciais, eu considero que a arte seja de interesse comercial porque assim como o restante da decoração, a arte é um investimento que trará impactos na relação com os clientes e/ou funcionários e agregará valor à marca.

6. Outros custos

Parece óbvio falar, mas além dos gastos com materiais, ainda temos que considerar transporte, alimentação e as vezes até hospedagem. Não precisamos dispensar um trabalho em outra cidade, basta incluir esses custos no projeto.

Há quem considere supérfluo, mas eu acho essencial registrar em foto e/ou video trabalhos grandes e diferentes. Ao contratar fotógrafos para nos acompanhar na pintura e registrar o making of, devemos estar cientes que eles também são profissionais e devem ser pagos pelo serviço. Expliquem como vocês imaginam o produto final (foto, video, etc) e perguntem quanto ficaria esse projeto, para então incluir no valor total a ser passado ao cliente. Jamais ofereçam divulgação como pagamento ou sugiram "parcerias", tá bom? Da mesma forma que queremos reconhecimento e respeito pelo nosso trabalho, façam com os outros.

E só finalizando, deixo alguns recadinhos tão importantes quanto o orçamento em si:

  • Toda empresa tem dinheiro. Nunca trabalhem de graça, por pagamento só em permuta, ou pior, em troca de divulgação. Se a empresa te achou, alguma visibilidade você tem e além disso, a melhor divulgação é um trabalho bem feito. Enquanto existirem pessoas dispostas a trabalhar de graça, as empresas vão se aproveitar disso e o valor de mercado do nosso serviço diminui.

  • A bagagem equilibra o fator tempo, porque nos tornamos mais ágeis a medida que estudamos, treinamos e passamos por situações que nos fazem evoluir, mas nem por isso o nosso trabalho fica mais simples. É exatamente todo esse conhecimento que dá o valor da arte que vamos propor ao cliente e isso entra na conta de maneira subjetiva. Não estou falando para diluir o valor dos cursos que fizemos, livros, etc dentro de um projeto, mas não podemos ignorar todo esse investimento na hora de elaborar uma proposta.

  • Tudo bem fazer artes para ONGs, amigos, familiares, etc. sem cobrar, mas tenham em mente que se fizerem isso com frequência, talvez as pessoas parem de valorizar o trabalho de vocês.

  • Mandem o orçamento em PDF por e-mail para o cliente explicando exatamente o que será feito, condições do trabalho (cancelamento, imprevistos, etc), preço e formas de pagamento. Contratos verbais podem gerar mal entendimento.

  • Algumas empresas precisam da nota fiscal para emitir o pagamento. Regularizar o trabalho através do MEI é essencial para isso e outra vantagem é que como pessoa jurídica vocês podem realizar vários serviços para uma empresa sem caracterizar vínculo empregatício.

  • Para ter uma noção dos valores de mercado, existem várias tabelas de design (ADEGRAF), ilustração (SIB), etc que estabelecem os preços médios e competitivos de cada serviço.

  • E só para reforçar, se um cliente quer uma arte de outra pessoa, recuse. Perder trabalhos não é crime, plágio é.

BONUS

Como boa amante de Excel, fiz uma calculadora simples para facilitar o cálculo dos projetos e estou disponibilizando aqui para vocês. Para fazer o donwload, é so clicar aqui. (Termos de uso rapidão: não distribua, não venda e se beber não dirija).


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