Carga mental x Bloqueio criativo


Atenção: talvez o conteúdo também faça sentido para outras pessoas que não sejam artistas e é isso mesmo, gente!

A vida de um artista independente (leia-se autônomo) não é o estereótipo romantizado de uma rotina cheia de água salgada, areia e miçanga. Não escolhemos a profissão por ser mais fácil, por mero talento, por comodidade ou por rebeldia social. Trabalhar com algo que amamos e enxergamos um propósito pode ser mais exaustivo do que qualquer emprego fixo.

Em uma empresa tradicional, você pode ser o chefe ou o subordinado. O chefe, provavelmente será responsável por tomar as decisões de um projeto e delegar a execução para o subordinado, que por sua vez trabalhará de forma operacional, mas sem a pressão da tomada de grandes decisões. Mesmo com as cobranças, desafios e várias razões para ter insônia, dentro de uma empresa as pessoas geralmente estão apoiadas por uma equipe. As responsabilidades são diluídas, mesmo que haja um pivô, e por isso podemos ficar um pouco mais tranquilos e amparados.

A pessoa que decidiu viver da arte é chefe e subordinado simultaneamente, além de ter que tomar todas as decisões acerca do seu negócio e vida pessoal, não consegue delegar o operacional bruto: o desenvolvimento da própria arte.


Principalmente nas fases iniciais do artista, há inúmeras preocupações que consomem a nossa plenitude: Quanto eu vou ganhar no próximo mês? Como eu posso captar novos clientes? Como faço para valorizar o meu trabalho? Estou cobrando pouco pelo serviço? Não estou conseguindo projetos porque cobro muito? E se o cliente não pagar? Como devo divulgar o meu trabalho? Posso aceitar “divulgação” como pagamento de uma marca grande apenas para constar esse trabalho no meu portfólio? Qual é o melhor fornecedor para os materiais que eu preciso? Eu deveria contratar um plano de saúde agora? (outros dilemas no final do texto só para não ficar cansativo aqui)

Essas são questões que podem ser respondidas em uma linha, mas exigem a elaboração de raciocínios extensos para que a resposta não venha no aprendizado do erro. Começando pela maior preocupação: enquanto empresas possuem um departamento financeiro (ou só uma pessoa) para cuidar do dinheiro e todas as operações envolvidas (fluxo de caixa, emissão de nota fiscal de serviço, declaração de IR, etc), os artistas solo se desdobram nas planilhas para entender o que entrou, o que saiu e quanto precisa entrar de dinheiro para viver o próximo mês. A matemática consegue ser mais deprimente quando não temos ideia de onde e quanto vai vir de dinheiro para o nosso bolso.

Além disso, existe uma parte burocrática chatíssima envolvendo envio de propostas/orçamentos, contratos, entender se o projeto para o qual você será contratado está de acordo com os seus valores éticos e morais (eu recuso projetos que contenham racismo, machismo, apologia ao consumo de carne, misoginia, opressão estética, qualquer coisa de caráter religioso etc, porque são coisas que eu não compactuo).

E não deixando de mencionar o lado artístico: A pressão para “criar” ou de estar criativa a todo momento (porque afinal eu dependo disso para trabalhar) e ser original, mas não conseguir nem iniciar um projeto, completa um ciclo de frustração.

Eu tinha o costume de tratar a minha exaustão mental como bloqueio criativo, na esperança de que qualquer dose de Pinterest pudesse demolir a barreira que me separava das grandes e boas ideias. A verdade é que a minha falta de pensamentos originais que se transformam em arte nada mais é do que o esgotamento do cérebro. Porque no final do dia, enquanto o nosso corpo descansa, a nossa cabeça continua trabalhando nas soluções para todos os problemas presentes e futuros, profissionais e pessoais (sim, ainda temos uma vida para cuidar) e quando temos a chance de não pensar em nada, é exatamente isso que fazemos.

O bloqueio criativo existe e acontece. Há momentos em que a cabeça ferve de ideias, mas não conseguimos traduzi-las no papel. Neste caso a falta de conhecimento técnico, foco ou medo de errar podem ser fatores limitantes na criação. E assim como pais que conseguem entender o que o choro do seu bebê recém nascido quer dizer, é importante desenvolver essa sensibilidade para descobrir qual é a raiz do problema e trabalhar de forma assertiva.

Depois de longos períodos de desmotivação, querendo desistir e voltar a ter algo mais “estável”, eu aprendi a conversar melhor comigo e perceber quando era hora de parar de correr e respirar antes do corpo entrar em colapso, antes de me afogar nas preocupações que às vezes nunca se tornariam problemas reais e antes de duvidar de tudo o que eu ja tinha construído.

Humildade e inteligência é não achar que somos invencíveis sozinhos ou que não precisamos dos outros para sermos melhores. Não devemos nos sentir derrotados, incapacitados e chegar no limite para pedir ajuda. Recorrer aos amigos não deveria ser incomodo para nenhum dos lados (Amigos, tá gente? Ficar pedindo ajuda de quem você mal conhece é muito chato).

Hoje, para “desbloquear” a criatividade eu procuro o apoio de amigos artistas e de uma comunidade linda de mulheres, que além de trazerem o conforto da empatia, me ajudam a tomar algumas decisões. As pessoas ao meu redor não são rivais, são praticamente a minha equipe e me ajudam com a maioria desses dilemas, aliviando minha sobrecarga emocional.

Se você super se identificou com esse texto, fica aí o alerta para cuidar da saúde mental. Não é incomum que esse estresse resulte em ansiedade, depressão ou até burnout, que são coisas muito sérias e precisam ser resolvidas com um profissional. Se no momento não ta rolando, pelo menos crie ou participe de grupos que você possa se amparar.

Anexo de dilemas diários (de fim de semana também e às vezes nos feriados):

  • O que fazer quando encontramos um plágio do nosso trabalho? Brigamos com a pessoa/empresa ou conversamos numa boa para resolver direitinho? Como fazer isso?

  • Como tornar o meu trabalho mais acessível sem desvalorizar?

  • Devo fazer trabalhos para ONGs sem cobrar nada?

  • Devo divulgar todos os meus trabalhos (mesmo aqueles que eu não me identifico mais)?

  • Devo oferecer o meu trabalho toda vez que eu tiver uma oportunidade ou isso pode parecer “desespero”?

  • Devo repassar os trabalhos que eu não gosto muito de fazer ou pegar para ter o desafio e pagar as contas no fim do mês?

  • Devo mandar contrato para empresas que pagam só na entrega do projeto? Ou confio neles para não esquecerem de me pagar em 60 dias?

  • Como lembrar os meus clientes de pagarem o restante do projeto sem ser a pessoa chata que fica cobrando? Quantas vezes devo cobrar o cliente do pagamento?

  • Que foto vou postar no meu instagram? Devo me preocupar com o engajamento nessa foto?

  • Será que eu deveria fazer algum curso agora? Qual? Essa pessoa é boa? Vale a pena o investimento?

  • Será que está na hora de dar cursos?

  • Devo aceitar propostas para divulgar as marcas? Será que compactuamos com os mesmos valores?

#vidadeartista #criatividade

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