Compartilhando conhecimento e processo criativo

Esse texto reflete a minha opinião baseada nos meus conhecimentos e experiências. Não são regras, dogmas, imposições ou qualquer coisa que você ou outra pessoa tenha que fazer, ok? Se quiser discordar de absolutamente toda palavra e fazer tudo ao contrário, ok também!

Então só para reforçar: as palavras abaixo não são regras! Pronto, vamos lá.

Recentemente eu fiz um desabafo no Instagram que me tirou o sono, mas também aliviou o coração por finalmente poder falar sobre uma coisa que me incomoda: sou obrigada a compartilhar meu conhecimento com as pessoas e doar meu tempo para responder suas questões?

Toda vez que eu mostro alguma parte do processo criativo da minha arte eu recebo mensagens do tipo: “que caneta é essa?”, “como faz isso?”, “onde eu compro esse negócio ai?” e na maioria das vezes a resposta está na própria foto, vídeo, legenda etc., ou pode ser encontrada no Google ou Youtube com o mesmo esforço que a pessoa teve para me enviar a pergunta.

Aí que vocês me acham a chata por que o que custa eu responder aquele ser humaninho que “admira tanto o meu trabalho e engaja com meu conteúdo”?. Pois é, não vou discordar da parte de ser chata, mas esse tipo de pessoa é uma das piores para se ter entre os seguidores. Porque mesmo que ela consuma só um pouquinho da minha energia, quando são 20 dela o negócio complica. São 20 pessoas usando um tempo que poderia ser aproveitado com outras coisas benéficas para os dois lados.

Existe um negócio chamado custo de oportunidade [1] (bem utilizado na economia) que eu aplico para muitas coisas na minha vida. Entre elas a mais valiosa que eu tenho: tempo. Esse conceito significa basicamente que quando você decide por algo está abrindo mão de outra coisa que também tem um valor. Neste caso, escolher doar meu tempo para essas pessoas seria abrir mão de conversar com outras que tenham dúvidas realmente interessantes ou somente ter um momento de descanso (não consigo nem explicar o quanto a minha qualidade de vida é importante para mim apesar do óbvio).

Antes eu ficava com peso na consciência de não dar atenção para essa galera, mas hoje a sirene do custo de oportunidade toca rapidinho e eu fico em paz com as minhas escolhas. Além disso, todo conhecimento sobre materiais e validação de métodos de trabalho (o que dá certo ou errado nas mais diversas situações) são custosos para quem trabalha com criação e possuem um valor financeiro alto. Não é justo exigir que os profissionais criativos ofereçam tudo isso de forma gratuita né?

Tá, mas então por que eu compartilho esse conteúdo se não quero ficar tirando dúvidas depois?

Como eu disse anteriormente, já não me sinto na obrigação de dar aulas particulares, consultorias ou ser uma ferramenta de busca nas DMs. E acredito que mostrar o processo criativo é extremamente importante para os artistas.

Quando mostramos somente o resultado de um trabalho é pouco provável que as pessoas tenham ideia de como foi feito. Se não contarmos essa história talvez elas nunca percebam o valor daquilo e mostrar o processo criativo é uma estratégia de marketing quase infalível.

No livro “Roube como um artista” [2], o Austin Kleon dá uma dica sobre isso. Há quem queira mostrar cada detalhe como se fosse uma aula. E há aqueles que possuem seus segredos e tudo bem não querer dividir com o mundo, basta compartilhar pedaços desse processo (que você mesmo escolhe, olha que belezinha!).

E no livro “All marketers are liars” [3] o Seth Godin enfatiza a ideia de que as pessoas compram a história que elas conhecem. Elas não compram coisas porque precisam, mas sim porque querem (não estamos falando de pessoas em situações extremas como fome, doença, etc. ta bom?). E elas desejam algo baseado na história que contam para si mesmas. Nós podemos mostrar uma arte e esperar que as pessoas se conectem com aquilo baseado em histórias que criam sozinhas (o que demandaria muito esforço da parte delas) ou podemos dar uma ajudinha contando um pouco a nossa versão.

Antes, o que era simplesmente um quadro que elas viram em uma foto do Instagram virou uma arte que demorou 2 meses para ser feita, que possui elementos relacionados ao autoconhecimento da artista (que essa pessoa se identifica), que foi feita com várias técnicas de pintura artística e em uma riqueza de detalhes que somente quem viu a pintura sendo feita perceberia. O valor foi construído com a narrativa oferecida nesse tempo e quem teve o interesse de acompanhar até o final enxerga o resultado e toda historia por trás dele. A conexão demanda esse tempo e o artista deveria estar disposto a se doar pelo menos nessa situação.

Para finalizar, uma frase que o Marko Ilic disse em uma aula (Make Art to Drive Changes) [4] e me marcou foi: “As pessoas podem pensar como nós, mas às vezes não conseguem se expressar como nós fazemos”. Isso me fez entender a importância dos artistas desejarem mostrar seus trabalhos e contar histórias para que as outras pessoas consigam contar as delas. Eu acho (na verdade tenho quase certeza) que o ser humano tem a necessidade de ser protagonista, até os menos egocêntricos aparentes. A sensação de pertencimento nas ideias é bem satisfatória principalmente quando vivemos em uma sociedade tão diversa e estamos constantemente buscando nossa identidade. Por isso qualquer informação que ajude o outro a contar sua própria história reforça o vínculo com o artista.

Então até que ponto devemos compartilhar espontaneamente o processo e nosso conhecimento? Isso depende de cada um. Pensando como uma artista empreendedora a pergunta que eu me faço é: “essa informação vale tanto a ponto de ser um diferencial para um workshop ou material didático?” se sim é porque ela vale dinheiro e talvez valha a pena guarda-la mais um pouco.

Resumindo para quem se perdeu ou para quem teve preguiça de ver tudo e veio ler só o último parágrafo: compartilhar o processo criativo ajuda a contar a história da arte (ou qualquer produto) e no final é a historia que vende. Conhecimento e validação de metodologias são coisas caras para o artista e por isso não precisam ser divididas gratuitamente se não quisermos.


Referências (não ABNT porque acho feio e não sou obrigada)


1. Pereira, Anísio Cândido, et al. "Custo de oportunidade: conceitos e contabilização." Caderno de Estudos 2 (1990): 01-24.

2. Kleon, Austin. Roube como um artista: 10 dicas sobre criatividade. Editora Rocco, 2013.

3. Godin, Seth. All marketers are liars: The power of telling authentic stories in a low-trust world. Penguin, 2005.

4. Ilic, Marko. Make Art to Drive Change. Aula disponível no Skillshare.

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